20 de fevereiro de 2025 · Academia Maranhense de Medicina
Saudação aos presentes...
A cirurgia é o ramo da medicina que se propõe curar pelas mãos. Cirurgia é ciência e arte. Como ciência, tem renovação dinâmica e constante de preceitos e conceitos em função da sua própria evolução. Como arte exige um aprendizado manual paciente e bem conduzido. Será aprendida mais facilmente por aqueles que nascem com vocação e aptidão específicas, como acontece com todas as artes.
Na evolução histórica da cirurgia, o papiro cirúrgico de Edwin Smith, escrito por volta de 1700 a.C., é um dos mais importantes documentos da medicina antiga do Egito. Na Grécia, no século V a.C., Hipócrates, o pai da Medicina, em seu Corpus Hipocratticum, nos diz que "o que as drogas não curam, a faca curará". Na Índia, no século IV a.C., houve um desenvolvimento grande da cirurgia plástica, principalmente das rinoplastias. Em 150 a.C., foi proibido que cirurgiões operassem pacientes para retirada de cálculos. Na Idade Média, período compreendido entre os séculos V a XV d.C., o cirurgião bizantino Paulus Aegineta escreveu um breviário de cirurgia, sobre traqueotomia, tonsilectomias, flebotomias e redução do tamanho das mamas. No século IX apareceram as primeiras escolas de medicina. A primeira foi a Scuola Medica Salernitana, em Salerno-Itália, pioneira no estudo de anatomia e cirurgia. Rogerius Frugardi, professor dessa Escola, publicou em 1.180 d.C. o livro “Practica Chirurgiae”, que serviu de base para os manuais de cirurgia ocidentais, influenciando-os até os tempos modernos. Em 1222 é criada a Universidade de Pádua, que contou com destacados professores de anatomia e cirurgia, como Giambattista Morgagni, Andreas Vesalius e Gabriel Faloppio, dentre outros. No fim do século XIII e início do século XIV, as escolas francesas aumentam seu prestígio e dois cirurgiões se distinguem: Henri de Mondeville e Guy de Chauliac (1260-1368), que preconizaram que as feridas limpas cicatrizam melhor. Os corpos estranhos deveriam ser removidos e o sangramento parado. A obra de Chauliac, Chirurgia magna, foi terminada em 1363 em Avignon-França. Em sete volumes, o tratado abrange Anatomia, Sangria, Cauterização, Medicamentos, Anestésicos, Feridas, Fraturas e Úlceras. Do século XV em diante, no período renascentista, ressurge uma nova cirurgia na Europa, em virtude do desenvolvimento da anatomia e da fisiologia, porém apenas no século XVI os cirurgiões atingiram sua autonomia com Ambroise Paré (1510-1590), considerado o fundador da ortopedia, que modificou o tratamento das feridas que, até então, eram cauterizadas e queimadas com óleo. Quando o rei Carlos IX ficou doente, disse a Paré: “Espero que vás tratar melhor o rei do que os pobres do hospital.” Ambroise Paré respondeu: “Não, isto é impossível.” “E por quê?”, perguntou-lhe o rei.
Respondeu: “Porque eu os trato como reis.” Em 1715, Luís XV decreta que o ensino da cirurgia seja incluído nas Escolas de Medicina da França.
No Brasil, no início do século XVIII encontramos poucos relatos sobre o ensino da cirurgia e da própria técnica cirúrgica. O século XIX caracterizou-se pelo desenvolvimento do conhecimento que auxiliou o crescimento da cirurgia. Cabe citar o controle da hemorragia, principalmente com novos recursos técnicos, o conhecimento do controle de infecção, a assepsia e a antissepsia e o controle da anestesia, que ofereceu uma possibilidade imensa para o maior alcance das intervenções cirúrgicas. No início do século XX existia o cirurgião que, de forma abrangente, realizava os chamados procedimentos operatórios. O desenvolvimento científico e a necessidade do emprego de técnicas especiais proporcionaram o surgimento dos especialistas. No final dos anos 50 já tínhamos outras especialidades com alcances precisos e definidos, como a cirurgia torácica, a neurocirurgia, a cirurgia plástica e a cirurgia cardíaca. Da segunda metade do século XX às primeiras duas décadas do século XXI inúmeros progressos tecnológicos proporcionaram o emprego de novos avanços, como a cirurgia dos transplantes de órgãos, a microcirurgia, o emprego de próteses e endopróteses, a cirurgia videoendoscópica e as técnicas de imagem congregando a radiologia invasiva, e esperamos um crescimento nas áreas já citadas e principalmente um trabalho importante na cirurgia que utiliza as células-tronco.
A partir de hoje, no entanto, Dr. José Aparecido Valadão, com seu ingresso nesta Casa, o Confrade passará a conviver com os dois mundos do Estado da Arte da Cirurgia: o mundo da ciência médica e da técnica cirúrgica e o mundo da literatura geral e médica, o mundo da história da medicina. Essa tem sido a missão da Academia Maranhense de Medicina em seus 29 anos de existência: lutar pela manutenção dos postulados éticos e médicos da medicina e pela preservação de sua história, reconhecendo os modernos avanços técnico-científicos, mas valorizando o passado sobre os quais esses avanços foram erguidos, salientando sempre a importância da humanização do ato médico.
Antes de encerrar estas minhas palavras, desejo homenagear o Confrade José Aparecido Valadão e os cirurgiões desta Casa, com esta citação do cirurgião francês Guy de Chauliac, para quem o cirurgião tem que possuir os três “H” exigidos para o perfeito exercício da arte e técnica cirúrgicas:
Head (cabeça), ou seja, conhecimento e sentimento; Hearth (coração), por sua sensibilidade e amor à arte cirúrgica; Hand (mão), por sua habilidade manual e sincronismo de movimentos. O Confrade ora empossado com certeza as possui.
Seja bem-vindo Dr. José Aparecido Valadão à nossa Academia.
Muito obrigado!